“Pra morrer basta estar vivo”
Em “Se eu fosse vivo… vivia”, o envelhecimento é representado a partir do amor, do medo da morte e da iminência da perda
Nos anos 1970, em Contagem, Minas Gerais, Gilberto canta uma serenata para reconquistar Jacira. Meio século depois o casal segue junto, agora cercado por comprimidos diários, consultas médicas e uma vigilância constante sobre a própria saúde. O amor permanece, mas é atravessado pela consciência da finitude. “Se eu morrer, com quem você vai ficar?”, pergunta Jacira (Conceição Evaristo) a Gilberto (Norberto Novais Oliveira), já preocupada com sua fragilidade. Dias depois, ela adoece e precisa ser hospitalizada.

Dirigido por André Novais Oliveira, Se eu fosse vivo… vivia constrói, em sua primeira metade, um retrato delicado da terceira idade. Com humor leve e economia de diálogos, o filme observa o cotidiano do casal: os pequenos gestos de cuidado, as rotinas compartilhadas e a intimidade de quem já viveu junto por décadas. A velhice aparece humanizada, não como mera decadência, mas como um momento de autonomia, liberdade e, também, humor.
Após cinquenta anos de vida comum, as trajetórias de Gilberto e Jacira parecem fundidas, quase indistinguíveis. E é justamente essa fusão que torna a ameaça da ausência devastadora. Quando Jacira é internada, o mundo de Gilberto começa a perder contornos. A narrativa então se desloca para o absurdo: situações estranhas, delírios e uma progressiva perda de orientação. O que poderia soar como ruptura estilística representa a materialização de um colapso interior. O nonsense funciona aqui como tradução da impossibilidade de aceitar a separação: uma espécie de dissolução do próprio eu diante da impossibilidade de contornar a morte.

Se o casal existia como unidade, a hospitalização de Jacira impõe a Gilberto uma pergunta silenciosa: quem sou eu sem o outro? O absurdo surge, assim, como sintoma e talvez até como mecanismo de defesa. Ao distorcer a realidade, o filme parece sugerir que o delírio pode ser uma forma de adiar o luto, de suspender o momento em que a perda se tornará definitiva.
Apesar de certa dispersão na segunda metade, Se eu fosse vivo… vivia mantém seu eixo ao tratar do envelhecimento não como epílogo, mas como etapa intensamente atravessada pelo amor e pelo medo. Entre o humor e o absurdo, o filme recorda que a finitude é condição inevitável, e que, diante dela, a imaginação pode ser tanto fuga quanto resistência.
Se eu fosse vivo… vivia (If I Were Alive), Brasilien, 2026, 101 Minuten, Weltpremiere; Regie, Buch: André Novais Oliveira, Portugiesisch, Untertitel: Englisch
LN-Bewertung: 4 / 5 Lamas
Berlinale-Termine:
Montag, 16. Februar 21:45 h Cubix 9
Dienstag, 17. Februar, 13:00 h, Cubix 7
Mittwoch, 18. Februar, 21:45 h, Filmtheater am Friedrichshain
Freitag,20. Februar, 18:30 h, Zoo Palast 1
Samstag, 21. Februar, 15:30 h, Urania



